segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Metamorfose ambulante, ou estátua de sal???



Metamorfose ambulante, ou estátua de sal???
Houve um compositor e intérprete muito famoso e controverso em seu tempo que tinha uma música cujo refrão dizia: “eu prefiro ser, esta metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”(Raul Seixas)... não me recordo do restante da música e sei que não devemos usar textos fora de contexto para acharmos pretextos, mas o fato é que a frase marcou tanto que não a ouço há mais de 30 anos e ela continua na memória...a princípio me causava aversão, pois era claramente uma contestação aos valores vigentes à época e também uma crítica à religião e dogmas. Contudo, pensando um pouco mais vejo que em minha vida esta tem sido uma constante, há um inconformismo e um desejo contínuo por mudanças, transformações, de dentro para fora, a constante pergunta, por que tem que ser assim? E se tentássemos de outra maneira? Quem estabeleceu estes valores? Não poderia ser de outra maneira?...

Em minha vida passei por inúmeras crises, pelos mais diversos motivos, em cada uma delas algo foi mudado em meu ser, se não consegui mudar as circunstâncias, certamente elas cooperaram para me transformar no que sou hoje, ou seja no correr dos anos, se houve uma coisa constante em minha vida, esta foi a mudança. Mudança de entendimento, de hábitos, de práticas, de valores, da forma de ser, da maneira de enxergar as pessoas e os eventos, e sabe Deus em quanto ainda serei mudado durante os dias de minha carreira nesta terra. Em meio a tantas mudanças há um fato comum e gerador de todas elas, e que nunca mudou nem mudará; Cristo veio ao meu encontro e me resgatou de meu fútil proceder e me colocou em seu reino, este marco é irremovível e imutável. Ter sido alcançado por seu amor e graça foi a razão da metamorfose inicial e agora é o agente da mudança contínua para ser como ele é.

Creio hoje que a boa nova é exatamente esta, a cada dia posso ser cada vez mais transformado à semelhança de Cristo, ou como dizem as escrituras, de “de glória em glória somos transformados”(ICo 3;18)... ou ainda, “nosso caminho é como a luz da aurora, que brilha mais e mais...”(Pv 4;18), ou ainda “por quem sofro dores de parto, até que Cristo seja formado em vós”(Gl 4;19), ou ainda “até que todos cheguemos”(Ef 4;13)... também “instruí-vos e aconselhai-vos”(Cl 3;16)... e muitas outras.

Isto é o que Metanoia significa: arrependimento ou o processo de conversão, tanto intelectual como moral e espiritual. É uma mudança contínua que começa a acontecer no momento em que o homem aceita a fé que lhe foi pregada. Então o motivo dessa metanóia (mudança da mente) é aprender a pensar segundo diz a sua fé.
A jornada de mudança da mente, do coração, do ser, ou do modo de viver de alguém.

Confesso que sempre ví o arrependimento como um momento de crise que trazia à consciência de uma nova realidade e a consequente mudança de pensamento, contudo me parece bem mais adequado pensar em uma jornada, algo que começa em determinado ponto, uma crise, e continua indefinidamente até chegar a ser “dia perfeito”, ou completar-se a mudança necessária.

Nada tem à ver com remorso, culpa, auto punição. Estas coisas oprimem e matam, arrependimento genuíno pode e até deve trazer consigo uma dose de tristeza pelo que aconteceu antes, contudo produzirá vida em abundância. Arrependimento não paralisa, ele coloca a pessoa em novo ritmo, em nova direção de marcha.

Arrepender-se é possível, é desejável é fruto da bondade de Deus. É a oportunidade de mudança, sempre presente enquanto há vida.

Para que haja arrependimento é indispensável conhecer o novo, o diferente, abrir-se aos relacionamentos, permitir que o entendimento seja arejado por novas compreensões, outras visões, quem sabe meu próximo não está mais próximo do real do que eu???
A idéia de um único momento de arrependimento que muda absolutamente tudo, como num passe de mágica, tem oprimido a muitos, pois transformamos em um momento algo que é um caminho, daí a cada vez que erramos ficamos achando que temos que reiniciar toda a trajetória, como o personagem que perde a vida no vídeo game, não, não, se em alguma altura do caminho nós nos desviarmos, o que temos à fazer é retornar àquele ponto da jornada e reiniciarmos dalí.

E a estátua de sal, onde entra na história???

É uma referência à história da mulher de Ló que recebeu a instrução do anjo do Senhor de não olhar para trás quando saísse de Sodoma, ela olhou para traz e se transformou em estátua de sal. (Gn 19;26). Podemos tirar daqui uma aplicação simples e profunda, aquela mulher estava tendo a oportunidade de se salvar de um lugar perverso, mas em seu coração ela amava aquele lugar e quis dar uma última olhada para trás, o que aconteceu foi trágico. Ela cristalizou, o mesmo acontece em nossas vidas quando insistimos em olhar para trás com saudosismo, nossas emoções se cristalizam, cristalizadas as emoções elas nos paralisam, ficamos incapazes de efetuar as mudanças necessárias para este novo momento de nossas vidas... um amigo certa vez disse que a experiência é um grande farol apontado para trás... as experiências que não trazem esperança, devem ser abandonadas, não fomos criados para andarmos por experiências, mas por esperança, fé.
Por isto a minha escolha é ser uma metamorfose ambulante, às vezes é cansativo, dolorido, andar por dogmas e regras é mais simples, mas as mudanças operadas por Deus naqueles que se deixam moldar por Ele valem muito à pena.

2 comentários:

  1. Profundidade da madrugada. Muito legal. Não tinha pensado em arrependimento desse ponto. É complexo mais ao mesmo tempo é mais simples.

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